Três perguntas para Ron Daniels

27.out.2015

Por que a escolha das duas peças e há pontos de convergência entre elas?

Ron Daniels – “Macbeth” e “Medida por Medida” são peças que refletem sobre como nós lidamos com o nosso amor, nossa vida e nosso medo da morte, e também como exercemos o poder e governança. São duas peças sensacionais, com uma dramaturgia vigorosa e cheia de vitalidade, com narrativas que abrangem tanto a ação quanto a metafísica, e que são capazes de proporcionar um verdadeiro gozo de teatro.

 Uma curiosidade: muita gente de teatro teme dizer a palavra Macbeth! Dizem que traz o mau olhado, a má sorte. Marcos Daud, por exemplo, um dos tradutores, sempre se refere à peça como “A escocêsa”, ao próprio Macbeth como “o dito cujo” e à Lady Macbeth simplesmente como “a Lady”. Talvez isso seja porque a peça exige um mergulho na escuridão terrível da mente de um criminoso e isso pode criar um grande mal-estar no elenco.

Mas ao ensaiar o Macbeth ao lado do “Medida por Medida”, uma peça deliciosa e cheia de vida e alegria, que não termina com a morte dos protagonistas, mas sim com a felicidade e o casamento, esse mal estar nunca se realiza. Pelo contrário, o bom humor, o riso, o bem-estar parecem estar sempre presentes na sala de ensaio.

Por isso espero também que o público venha ver as duas peças lado a lado – o nosso Repertório Shakespeare – para que ele possa se aprofundar tanto em duas das mais importantes obras primas do teatro mundial, como para compartilhar conosco deste gostoso bem-estar.

Como fazer uma montagem de Shakespeare que seja brasileira sem ser folclórica?

Ron Daniels – O teatro do Shakespeare me parece ser algo muito mais perigoso, subversivo, muito mais intelectual e emocionalmente muscular, desafiador, do que folclórico e bonito. Entendo suas peças como algo que não seja precioso, algo que seja direto, que qualquer um possa entender com grande clareza, não apenas a narrativa, mas todas as palavras, como se fossem palavras faladas na rua. Vamos procurar uma linguagem popular. Não uma linguagem erudita, elitista. Só assim chegaremos a algo completamente contemporâneo, um teatro cheio de paixão, com uma audácia feita com o coração, com um calor imediato – este, a meu ver, é o teatro do Shakespeare, em qualquer linguagem.

Sempre falamos de levar o teatro para a rua….mas que tal levarmos a rua para o teatro? Esse é o nosso ponto de partida.

A realidade política brasileira entra em cena?

Ron Daniels – Certamente. Mas Shakespeare não escreveu nenhuma peça sobre seu próprio tempo. Ele sempre criava um sonho, uma fantasia, longe da sua terra natal. As suas peças se situam em lugares a que ele nunca foi, em tempos antigos que ele não conheceu. E Shakespeare não procura mudar o mundo, por pior que este mundo seja. Ele não está à procura de soluções. Ele apenas nos faz olhar profunda e rigorosamente a nós mesmos, às nossas contradições, e nos dá, assim, uma visão das infinitas possibilidades humanas.